A "Margem" e a reconstrução da política a partir do chão da periferia

Iniciativa na Baixada Fluminense articula cultura, formação e organização popular para transformar demandas locais em força política permanente.

Editor23 de agosto de 2026, 06:20
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A "Margem" e a reconstrução da política a partir do chão da periferia

Em Morro Agudo, um dos bairros mais populosos e vibrantes de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, um movimento vem ganhando corpo ao propor uma inversão radical na forma de pensar e praticar a política institucional e comunitária.


Batizado de "Margem", o encontro político, cultural e formativo nasceu da premissa de que o conhecimento e as propostas para a transformação social também emanam de quem habita as bordas dos grandes centros de poder.


Longe da formalidade das reuniões partidárias tradicionais, a iniciativa se consolida como uma roda aberta de conversa onde a realidade local é o ponto de partida para uma análise profunda da conjuntura nacional.


Na última sexta-feira aconteceu, no Café Com Livros, em Morro Agudo, o que ficou conhecido como o primeiro "Encontro da Margem", onde um grupo de aproximadamente 20 pessoas, dentre eles artistas e professores, discutiram a cidade, a conjuntura atual, os escândalos, as obras não acabadas e fizeram conexões de saberem, de visões de mundo, entre concordâncias e discordâncias, todos acreditam que evoluíram.


O coletivo reconhece que a periferia não é apenas um lugar de carência, mas um território produtor de leitura de mundo, como apontam estudos contemporâneos sobre a 'Periferia-Mundo' na região, que destacam as fortes modificações na estrutura social e política local.


A dinâmica da "Margem" é pautada pela circulação de argumentos e pelo confronto saudável de opiniões, sem a pretensão de uma unanimidade artificial. Em encontros que misturam debates intensos com momentos de descontração — muitas vezes regados a conversas informais e música —, os participantes buscam desfazer equívocos e construir coletivamente uma leitura situada sobre o território.


A idéia é que os encontros aconteçam todas as sextas-feiras, no Café com Livros, anexo ao Quilombo Enraizados, sede do Instituto Enraizados, a partir das 19 horas. E apesar de ser um encontro aberto, os organizadores dizem que é um encontro à esquerda.


A proposta é compreender que os grandes temas da política nacional se manifestam concretamente no cotidiano: no atraso crônico do ônibus, na falta de vagas em creches públicas, na iluminação precária das ruas ou na ausência de equipamentos culturais que preservem a história da cidade.


Essa abordagem territorializada encontra eco em pesquisas acadêmicas da UERJ que discutem a memória política da Baixada Fluminense como uma forma de resistência aos estigmas históricos impostos à região, lembrando iniciativas como a TV Maxambomba, que nas décadas de 80 e 90 já buscava construir narrativas positivas sobre o território.


Pergunta-se primeiro o que precisa mudar e quais são as urgências da população. Somente após esse diagnóstico é que se discute quem tem a responsabilidade sobre aquele problema, quais políticas públicas poderiam enfrentá-lo e quais projetos políticos se aproximam ou se afastam dessas prioridades.


Essa mudança de perspectiva visa transformar o cidadão de um simples receptor de campanha em um produtor de força política organizada. O diagnóstico local aponta que a concentração de poder em poucos grupos em Nova Iguaçu, por exemplo, é reflexo de uma lacuna histórica no chamado 'trabalho de base'.


A análise compartilhada nos encontros sugere que a cidade passou aproximadamente uma década sem uma oposição de esquerda suficientemente organizada e competitiva, permitindo que determinados grupos construíssem relações sólidas com vereadores, igrejas e associações, enquanto parte da militância progressista perdia presença cotidiana nos bairros.


A resposta da "Margem" a esse cenário é a permanência: a convicção de que a força política não se constrói apenas em períodos eleitorais, mas através de relações contínuas, distribuição de recursos simbólicos e ocupação de espaços.


A juventude e a cultura Hip Hop também ocupam papel central nessa articulação. Reconhecendo o potencial das batalhas de rima e rodas culturais de Nova Iguaçu, a "Margem" busca integrar esses espaços ao debate político sem retirar a natureza artística e de lazer desses encontros. A ideia é que provocações pontuais de DJs ou MCs possam despertar a consciência política dos jovens, combatendo a ideia de que a periferia é naturalmente conservadora ou progressista.


Estudos da PUC-Rio sobre a inserção do Hip Hop na política da Baixada reforçam que esses coletivos são fundamentais para a construção de novas narrativas e para a disputa de subjetividades entre os jovens, que muitas vezes desconhecem as referências históricas da própria cultura.


A "Margem" se propõe a ser um hábito, um espaço para acompanhar mandatos, cobrar compromissos e formar novas lideranças, garantindo que a organização popular não se dissolva após o fechamento das urnas.


Durante as reuniões, exemplos concretos como o trânsito caótico do bairro, o custo elevado do transporte e a precariedade da biblioteca municipal são colocados lado a lado para formar um diagnóstico da cidade.


Quando essas reclamações individuais são politizadas, elas deixam de ser apenas frustrações pessoais e passam a ser questões coletivas que exigem respostas do Estado. A "Margem" reafirma que é possível enxergar e organizar o mundo a partir da periferia, disputando o futuro da cidade com base na vivência de quem conhece cada rua e cada desafio de Nova Iguaçu, sendo referência para outros territórios que desejem se organizar politicamente.


O movimento entende que cem pessoas desorganizadas são apenas indivíduos, mas cem pessoas que formulam prioridades e decidem coletivamente constituem um bloco político capaz de alterar a correlação de forças local.


Essa prática cotidiana de cidadania é o que define a "Margem" como um espaço de intervenção real, onde a política deixa de ser um evento esporádico para se tornar uma ferramenta de transformação social enraizada no chão da Baixada Fluminense.

#BaixadaFluminense#FormaçãoPolítica#MorroAgudo#OrganizaçãoPopular

Galeria

Fotografia: Fernanda Rocha

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