RapLab transforma aula sobre “Guerra às Drogas” em música e reflexão coletiva
Nova Iguaçu, setembro de 2025 — Numa sessão do RapLab realizada após a aula do professor de história Igor Bernardino, os residentes do Lab Enraizados não apenas discutiram um tema urgente: transformaram-no em canção. A música “Guerra às Drogas?”, composta coletivamente naquela tarde, parte da sala de aula e chega ao estúdio como documento sobre as contradições de uma política que, no dizer dos autores, “não é bem contra as drogas”.

A letra resultante é direta e corrosiva.
Em seus primeiros versos, a canção aponta o alvo: “O capitalismo é o sistema do opressor / Usando o medo como rolo compressor”. A partir dessa chave, o rap articula uma leitura que mistura economia política, crítica cultural e experiência de periferia: o medo como motor para decisões que legitimam violência e controle; o mercado como lente que transforma corpos e territórios em problemas a serem “resolvidos”.
Dois eixos percorrem a letra com força: a denúncia da máquina repressiva e a aposta na educação popular como potência de libertação. Quando afirmam que “o controle pro povo é a nossa revolução / É a tecnologia que democratiza a educação”, os autores negam a narrativa tecnofóbica que reduz soluções a intervenções militares. Pelo contrário, levantam a tecnologia e a educação como ferramentas replicáveis de emancipação e libertação, antídotos contra o controle social que se mascara de política pública.
A música não evita contradições nem coloca respostas fáceis. Pergunta-se sobre a maconha com a mesma franqueza com que discute oferta e demanda: “E a maconha? Vamos comprar ou plantar?” — pergunta que tem menos a ver com incentivo ao consumo e mais com a ideia de autonomia e soberania sobre recursos, saúde pública e sobre a criminalização de parte da sociedade. O verso dialoga com a crítica à criminalização: se o mercado regula o desejo, por que certos corpos são tratados como criminosos quando buscam alternativas de subsistência?

Outro trecho converte história em tensão viva: “Há mais de 500 anos luto por libertação / O pobre tá formado, formando opinião”. A referência histórica aos séculos de colonização e escravização transforma a canção em genealogia de resistência. Não é apenas uma escrita de presente; é um acúmulo de lutas que atravessam o tempo e insistem na construção de sujeito político nas periferias.
A letra também desvela a retórica da guerra: “Guerras são só contra as drogas? Eis a questão / Um plano de extermínio ou de dominação”. Ali está o núcleo da crítica: se existe uma “guerra”, seus alvos revelam sua função. A narrativa punitiva não se limita à redução de oferta; ela define inimigos, naturaliza incursões militares em territórios populares, legitima armamentos e normaliza mortes evitáveis.
Entre imagens poéticas e metáforas urbanas “Aqui as linhas soam como armas / E a droga é o pressuposto, redbull vai te dar asas” a canção opera em múltiplos níveis. Usa gírias e imagens cotidianas para denunciar uma lógica macro: o consumo, a mercantilização dos corpos e a engenharia do medo. Ao mesmo tempo, reafirma que a resistência está no corpo e na prática coletiva: “A resistência está no sangue” é um refrão de pertencimento e persistência.
O processo criativo, segundo os participantes, foi tanto aula quanto oficina. A explicação histórica de Bernardino serviu de base para que vivências e memórias circulassem e fossem costuradas em rimas. Esse método de aprender para recriar é a marca do RapLab: não somente estudar, mas transformar o conhecimento em linguagem que se move, que alcança a rua e gera debate.
Mais do que uma música, “Guerra às Drogas?” é um gesto pedagógico-político: um manifesto que combina história, crítica e estética. Ela documenta o modo como jovens periféricos leem políticas públicas, enfrentam estigmas e apontam saídas que passam por educação, organização e autonomia. A canção não simplifica: problematiza. E, ao problematizar, convoca escutas das escolas, das mídias, das administrações públicas.
O trabalho será incorporado à produção do Lab Enraizados e deve ser apresentado em ciclos de exibição e debate, não só como peça artística, mas como recurso didático e ponto de partida para rodas comunitárias.
Afinal, o próprio processo coletivo de composição já desempenhou papel educativo: transformou uma aula em experiência criativa e em arma simbólica contra narrativas naturlizadas.
Participaram do processo Tsant, Kr7, Yakira, Rico Mesquita, Rud, Pharrá, Baltar, Mati, Aclor, Chal, Jhon Griot.
LETRA
O capitalismo é o sistema do opressor
Usando o medo como rolo compressor
O controle pro povo é a nossa revolução
É a tecnologia que democratiza a educação
Aqui as linhas soam como armas
E a droga é o pressuposto, redbull vai te dar asas
O tempo pra mim é como aprender a voar
Organizando o ódio com educação popular
Oferta e demanda, a lei sutil do desejar
E a maconha? Vamos comprar ou plantar?
Não vem me julgar, a resistência está no sangue
Os playboy tudo drogado tão achando que são guangue
Há mais de 500 anos luto por libertação
O pobre tá formado, formando opnião
Viver com dignidade, hoje é tudo o que eu quero
Sobrevivo num laboratório pra derrotar o clero
Embasado em fato e não alienação
A favor dos meus e contra o patrão
Guerras são só contra as drogas? Eis a questão
Um plano de extermínio ou de dominação



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