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Porque uma educação marginal se faz necessária?

Porque uma educação marginal se faz necessária?

Vejo que em muitas de nossas andanças, não só pelas periferias, mas também no outro extremo dos privilégios, nos escancarou uma tijolada de verdades.

O ensino que transforma e é realmente de qualidade é pensado para poucos. Manter o ensino público defasado e patinando, é um extenso projeto de manutenção do 1% da população que tem acesso irrestrito a 99% dos recursos financeiros do país.  Porque a educação como nos vendem a “oficial”, a de pedigree, de fachada bem-apagada  está desenhada para reproduzir desigualdades. Porque enquanto uns estudam com mesas decentes, laboratórios novos, bibliotecas com faróis de fibra ótica, outros mal têm giz, sala com infiltração, máquina de café velho. E isso não é um acidente: é um projeto.

O abismo institucionalizado: público vs privado

Das cerca de 47,3 milhões de matrículas na educação básica no Brasil em 2023, apenas 19,9% estão na rede privada. Ou seja: a grande maioria estuda em escolas públicas. Já no ensino superior, a lógica se inverte: 74,1% dos estudantes de graduação estão em instituições privadas.  Entretanto, o desempenho médio no ENEM e em redação permanece (apesar de algumas melhoras) muito superior nas escolas privadas.

Por exemplo, em 2022, a média de redação em particular foi 747, enquanto nas públicas ficou em 553. Em 2018, essa diferença era muito maior: 644 para privadas vs. 382 para públicas. Das 60 notas máximas em redação, apenas 6% são de alunos que estudaram em escolas públicas.

Quanto custa aprender… ou quanto custa não aprender

Em Minas Gerais, uma escola privada “de elite” chega a gastar por aluno até 738% mais do que a escola pública estadual para o mesmo ensino médio. Ou seja: o aluno da privada inequívoca recebe um investimento oito vezes maior em muitos casos. O Brasil investe cerca de 69% menos por aluno comparado à média de países “mais economicamente desenvolvidos”.

Desigualdades que se acumulam: tempo, oportunidades perdidas, abandono

Alfabetização: apenas 14,1% das crianças de níveis socioeconômicos muito baixos têm nível de leitura suficiente; no grupo mais rico, esse número é de 83,5%.
Evasão escolar: milhões de crianças e jovens (4-17 anos) estão fora da escola, principalmente nas camadas mais pobres.

A probabilidade de quem está em escolas particulares ingressar no ensino superior é muito maior do que a de quem está na rede pública. As vagas privilegiadas, os cursinhos caros, o tempo para estudar,  tudo pesa. Dados mostram que entre os concluintes do ensino médio em escolas federais, 58% ingressaram no superior logo após, contra proporções muito menores nas redes públicas estaduais ou municipais sem forças de elite.

 A falácia da “igualdade formal”

Eles dizem: “todos têm direito à educação.”
Eu respondo: sim, formalmente. Mas quem garante o (direito efetivo) é quem tem dinheiro, quem tem casa de estudo, quem tem equipamento, quem tem tempo livre após trabalhar, quem tem quem ajude nas lições de casa.

Mesmo estudantes “ricos”, nas escolas privadas, não chegam à média global esperada em diversos rankings internacionais. Isso mostra que um ensino de elite também padece, mas claro, padece com mordomias que muitos estudantes públicos sequer sonham. A distância de desempenho entre redes públicas e privadas diminuiu em alguns estados (como Paraná) no Ideb, mas a diferença ainda existe entre os melhores da pública e a grande massa da privada, entre o que se investe por aluno, entre infraestrutura, entre apoio docente.

Educação marginal: uma alternativa necessária

Porque: “Marginal”, no sentido de fora do otimismo oficial; dar voz aos excluídos, fazer com o que estar à margem de maneira combativa, possa ser o centro de um novo projeto educacional.

Porque “igualdade formal desequilibrada não é justiça”; é performance. A marginal exige que o conteúdo, o método, a prática venham de quem realmente pode contribuir de maneira necessária, para tirar os estudantes (ou pelo menos grande parte) da inércia. Quem sofre injustiças, dificilmente, tem meios de reação. Não digo apenas politicamente, mas enxergar meios que façam valer direitos, e que lhes proporcione ferramentas reais de luta.

Porque uma educação que não seja marginal / com foco na transformação real do ser, será sempre a educação dos que já nasceram com mais, com privilégios. E manter isso é manter o Brasil como está: pouco poder para muitos, muito poder para poucos.

Então sim, para muitos é preciso que: que se continue privilegiando colégios de elite com ar condicionado, quadras cobertas, professores formados em Harvard, bolsas de intercâmbio, “tech labs” futuristas. Bravo. Mas não se enganem: isso não é progresso. É espetáculo. É calamidade explícita: Muitos empresários da educação dizem; “vou dar pra uns poucos uma escadinha / bolsa, para que não reclamem muito”. Enquanto isso, a maioria come o que sobra, estuda na luz trêmula, com lousa que range, professor sobrecarregado, WiFi que cai, biblioteca que é uma prateleira.

E fica o recado: ninguém muda o mundo reparando privilégios, mas arrancando-os… ou pelo menos diluindo sua força. Educação marginal não é sujeita, é insurgente.

 Só para ser um pouco mais explícito aqui vai um pouco do que mencionei

Confira abaixo as escolas com as mensalidades mais caras do Brasil:

Avenues (São Paulo) – de R$ 9 mil a R$ 15.182

Graded (São Paulo) – de R$ 11.459 a R$ 14.221

Concept (São Paulo) – R$ 13.340

St. Paul’s School (São Paulo) – de R$ 10.533 a R$ 13.303

St. Francis College (São Paulo) – de R$ 10.205 a R$ 12.765

St. Nicholas (São Paulo) – de R$ 7.560 a R$ 12.730

Escola Lourenço Castanho (São Paulo) – de R$ 9.353 a R$ 11.103

Red House International School (São Paulo) – de R$ 6.319 a R$ 10.987

Escola Americana (Rio de Janeiro) – de R$ 7.440 a R$ 10.952

Chapel School (São Paulo) – de R$ 5.220 a R$ 10.773

A lista escolas “Mais Exclusivas do Brasil”, da Forbes, é produzida anualmente e avalia escolas de todo o país com base nas mensalidades declaradas, do ensino infantil até o médio.

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Samuca Azevedo é ator, diretor e produtor cultural de Nova Iguaçu. Integrou a primeira formação da Cia Encena de Teatro nos anos 1990 e foi um dos pioneiros do projeto Teatro em Sala. No Movimento Enraizados, estruturou a biblioteca e o telecentro, coordenou projetos como o Pontão de Cultura Preto Ghóez e o Projovem Adolescente, além de organizar oficinas, debates e eventos. Hoje, como presidente do Instituto Enraizados, articula ações culturais, educativas e comunitárias na Baixada Fluminense.

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