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Poetas Compulsivos fazem da palavra um ato de sobrevivência coletiva

Poetas Compulsivos fazem da palavra um ato de sobrevivência coletiva

Salve, gente boa!

Chego por aqui para trocar mais uma ideia nessa coluna quase semanal, trazendo reflexões sobre cultura, educação e sobrevivência periférica. Hoje quero falar sobre algo que pulsa forte em Morro Agudo: o Sarau Poetas Compulsivos, que acontece no Quilombo Enraizados desde agosto de 2013, todo primeiro sábado do mês. Já perdi as contas de quantas edições realizamos. Não importa: o que importa é que seguimos vivos.

O sarau nasceu com uma característica muito bonita: é um espaço onde pessoas que escrevem versos, poesias e crônicas dentro de casa, muitas vezes escondidas, sem coragem de mostrar nem para os próprios amigos, encontram ali um ambiente seguro para revelar o que têm de mais íntimo. Há quem nunca tenha pensado em escrever, mas começa a produzir justamente por causa do encontro, contaminada pela energia coletiva que o espaço proporciona. E isso, para mim, é arte-educação em seu estado mais puro.

Ao longo da história do sarau já tivemos três atrações artísticas por edição. Mas algo curioso aconteceu: aquele mesmo público tímido, que precisávamos praticamente implorar para subir ao palco nas primeiras edições, começou a se tornar atração. A potência cresceu tanto que tivemos que reduzir as atrações convidadas de três para duas, para liberar o palco para quem antes assistia em silêncio. E assim seguimos, celebrando a autonomia criativa local.

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Outro aspecto interessante é que o sarau é levado muito a sério. Não temos cachê fixo (pelo menos não tínhamos até recentemente), mas temos exigências: horário de chegada, responsabilidades individuais, conversas de alinhamento, acordos éticos. DJs, apresentadores, produtores… tudo é organizado com respeito. Além disso, temos curadoria: para se apresentar no palco, primeiro é preciso frequentar como público. Depois sugerimos nomes, votamos, discutimos. A comunidade é parte ativa do processo.

Mas talvez o fator mais precioso seja o próprio Quilombo Enraizados. Nosso espaço é cura, afeto, troca, acolhimento. É território seguro — e isso não é figura de linguagem. Com o tempo, observamos o crescimento significativo de mulheres e de pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ no público e no palco. Todo mês, esse número é expressivo. Isso diz muito. O sarau não é moda; é necessidade.

Quem já viveu sabe: ali há quase um culto — mas um culto à palavra, ao encontro e à vida. As pessoas confraternizam, choram, aplaudem, se abraçam e entram em catarse. É um espaço de sobrevivência e de continuidade. Resistimos, e resistimos junto.

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E aqui entra um ponto fundamental: política pública. Nos últimos três meses, fomos contemplados pelo Edital Fluxo Fluminense, do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Com esse recurso, realizamos seis edições: três no quilombo e três em escolas públicas de Nova Iguaçu. Pela primeira vez, todas as pessoas envolvidas foram remuneradas. Não mudamos estrutura, nem equipe, nem metodologia. Apenas reconhecemos, com dignidade econômica, quem já fazia por amor.

Na curadoria dessa fase, priorizamos artistas que já tinham se apresentado gratuitamente no passado. Não criamos estrelas importadas — fortalecemos quem sempre esteve conosco.

Com poucas atividades e alguma organização, empregamos gente, pagamos artistas, produtores e comunicadores, fortalecemos uma cadeia criativa inteira. Damos tempo livre para que artistas possam pagar as contas, respirar e se reinventar. Isso é economia criativa. Isso é política cultural inteligente: financia não só o acesso, mas a fruição, a produção e o pertencimento.

Quando o Estado investe em cultura na periferia, não está distribuindo favor: está estimulando uma engrenagem que devolve dignidade, circula renda e constrói memória. É disso que se trata.

O Sarau Poetas Compulsivos não é um evento. É um organismo vivo. É a prova de que quando a periferia cria seus próprios dispositivos de cuidado, o mundo se torna mais respirável. Seguiremos compulsivos, poetas, vivos.

Até a próxima reflexão.

Dudu de Morro Agudo
Rapper, educador e doutor em educação pela UFF.
Fundador do Instituto Enraizados.

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Dudu de Morro Agudo é rapper, educador popular e doutor em Educação. Fundador do Instituto Enraizados, é referência na articulação entre hip hop, formação políticas. Criador da metodologia RapLab, já levou seu trabalho para escolas no Brasil, França e nos Estados Unidos, e apresentou pesquisas em eventos internacionais. Com discos, livros e documentários no currículo, sua trajetória conecta arte, educação e transformação social a partir de Morro Agudo, Nova Iguaçu.

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