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O rap como denúncia e anúncio: “Minha Lealdade” ecoa do CIEP 201

O rap como denúncia e anúncio: “Minha Lealdade” ecoa do CIEP 201

No dia da sessão do RapLab realizada no CIEP 201, em Duque de Caxias, a convite do projeto Africanidade, os jovens participantes experienciaram um encontro já não tão raro na escola, pois realizamos seis encontros na escola, quatro sessões do RapLab e duas do Workbeat, mas certamente foi um dia único para uma mistura entre arte, território e produção de conhecimento.

A atividade se estruturou como uma roda horizontal de diálogo, onde cada estudante pôde relacionar sua vivência com questões sociais mais amplas, revelando as potências das periferias como lugar legítimo de elaboração crítica. Longe de uma perspectiva de “educação bancária”, denunciada por Paulo Freire, o RapLab aposta na criação e na escuta afetiva como práticas de aprendizagem: em vez de depositar informações prontas, provoca os jovens a formular, relacionar e significar o mundo.

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Jhon Griot participou de cinco sessões do RapLab como auxiliar

Desse processo emergiu a música “Minha Lealdade”, que reflete a tensão entre afetos, violência e dignidade nas favelas e periferias. A letra denuncia a ausência de políticas públicas, a normalização da criminalidade e a invisibilidade das infâncias feridas, mas também anuncia caminhos como a força coletiva, o cuidado com a educação e o futebol como respiro simbólico.

Há neste rap um gesto freiriano: ao narrar sua realidade, o sujeito se reconhece como produtor de cultura e conhecimento, capaz de interpretar, transformar e sonhar seu território. A música mostra que, apesar da carência estrutural, há orgulho, pertencimento e ética comunitária.

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Jhon Griot auxiliando na atividade

Enquanto escreve, improvisa e escuta o outro, o jovem exercita leitura de mundo, argumentação e repertório emocional. O RapLab transforma rimas em pesquisa, vivência em teoria, dor em anúncio de futuro. Assim, o que nasce como um encontro vira manifesto, memória coletiva e pedagogia viva, porque ali, entre uma rima e outra, nasce um saber que não cabe no quadro: cabe na vida.

 

 

MINHA LEALDADE

Aonde eu sou cria, me sinto confortável
Mas a realidade não é favorável
Pois tem morte e criminalidade
Mesmo assim mantendo minha lealdade

O que mais tem na praça? Criança machucada
Então fica esperto que minha rima é levada
O mundo é um lugar cheio de ilusão
Aqui onde eu moro tem que pegar a visão

Muito suborno, muito ladrão
A sociedade conclui esse padrão
Pois o favelado também tem coração
Cuidado pra não perder a educação

Trabalho pra manter minha dignidade
E o futebol me dá liberdade
A gente na favela quase não tem grana
No meu conforto você não me engana

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Dudu de Morro Agudo é rapper, educador popular e doutor em Educação. Fundador do Instituto Enraizados, é referência na articulação entre hip hop, formação políticas. Criador da metodologia RapLab, já levou seu trabalho para escolas no Brasil, França e nos Estados Unidos, e apresentou pesquisas em eventos internacionais. Com discos, livros e documentários no currículo, sua trajetória conecta arte, educação e transformação social a partir de Morro Agudo, Nova Iguaçu.

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