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Hip hop não é sobre estar na moda, é sobre estar no mundo

Três artistas do hip-hop posam sorrindo em frente a um mural colorido inspirado em ancestralidade.

Hip hop não é sobre estar na moda, é sobre estar no mundo

Todo dia alguém novo chega ao hip-hop. Todo dia.

Nas quebradas, nas escolas, nos ônibus, nos celulares, nas redes, o movimento segue convocando novas vozes, novas estéticas, novas urgências. Mas o que acontece quando essa chegada não encontra acolhimento, orientação ou memória? No país da pressa, da tentativa e erro, o hip-hop ainda resiste como escola e trincheira. Porém, para que essa porta continue aberta, é preciso algo que vai além do beat: é preciso transmissão.

1-1-1024x576 Hip hop não é sobre estar na moda, é sobre estar no mundo
Encontro entre gerações dentro da cultura hip-hop, fortalecendo vínculos e transmitindo valores.

A cultura hip-hop nasceu no Bronx e percorreu o mundo carregando valores claros: união, respeito, originalidade, comunidade, autocuidado e responsabilidade territorial. Esses princípios foram passados de geração em geração, primeiro na oralidade, depois na pesquisa, nos livros, nas batalhas, nas rodas. Mas, como como eu sempre digo, “se a gente não fizer esse papel de professor, alguém vai fazer e talvez não explique os valores que sustentam a cultura de uma forma coerente”. E esse é o perigo: sem legado, vira entretenimento; sem ética, vira produto vazio.

Por isso, impressiona observar quem dedica 15, 20, 30 anos à cultura. Quem constrói eventos, grava música, pinta muro, organiza coletivo, fortalece a quebrada. Hip-hop não é hobby: é ofício. E, como dizem, é um “bichinho” que pica e contamina pra eternidade. Você pode até mudar de área, mas a cultura não sai do corpo.

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Gustavo Baltar ministrando uma sessão do RapLab no CIEP 101, em Duque de Caxias, para o projeto Africanidade.

O problema é que o Brasil ainda não facilita o florescimento dessas iniciativas. A cada dia, coletivos culturais lutam contra a falta de recurso, a burocracia paralisante, o desprezo político e o cansaço psicológico. Construir já é difícil; manter funcionando é heroísmo. Incentivar outras pessoas a sonharem, num país que desestimula o sonho, é ato de rebeldia.

Nesse contexto, organizações como o Instituto Maracá, assim como tantas outras espalhadas pelos territórios periféricos, merecem reconhecimento apenas por existirem. Elas acolhem a juventude, oferecem ferramentas, formam público, criam pertencimento. Fazem cultura com o orçamento de um lanche, inventam estrutura onde o Estado não chega. E ainda assim, resistem com sorriso, abraços e rap no peito.

Em uma conversa com o Sebastião Vampiro, de Macapá, eu disse: – “Vivemos em um país onde temos uma âncora amarrada ao pé para não avançarmos”. A metáfora é precisa: somos travados na mobilidade social, sufocados pela falta de oportunidade, empurrados para longe das artes. Não é exagero dizer que, no Brasil, permanecer vivo já é um projeto cultural.

O hip-hop segue sendo essa via. Uma máquina de futuro. Uma pedagogia urbana. Um manifesto de existência. E, a cada nova chegada, essa cultura confirma: ninguém solta a mão de ninguém.

Para que o legado permaneça, é preciso continuar contando histórias, compartilhando processos, ensinando valores. Porque, no fim, hip-hop não é sobre estar na moda, é sobre estar no mundo.

E quem cuida do mundo, cuida de gente.

Sempre.

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Dudu de Morro Agudo é rapper, educador popular e doutor em Educação. Fundador do Instituto Enraizados, é referência na articulação entre hip hop, formação políticas. Criador da metodologia RapLab, já levou seu trabalho para escolas no Brasil, França e nos Estados Unidos, e apresentou pesquisas em eventos internacionais. Com discos, livros e documentários no currículo, sua trajetória conecta arte, educação e transformação social a partir de Morro Agudo, Nova Iguaçu.

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