Arte para sobreviver: o hip-hop como território e resistência no Amapá
Produtor cultural Sebastião “Vampiro” revisita sua trajetória no grafite, a construção da “Casa de Cultura Hip-Hop Samaúma” e os desafios de sustentabilidade artística em Macapá.
Conheci o Vampiro em Porto Alegre, durante as ações do Pontão Cultura Viva Hip Hop, onde eu e ele somos parte do conselho gestor, junto com DJ Raffa Santoro (DF). O convite surgiu a partir de Fabiana Menini, uma das lideranças do Pontão. Vampiro é um cara gente boa demais, super tranquilo, sincero ao extremo e que não se esconde atrás dos próprios erros, busca sempre a melhoria, os avanços e o desenvolvimento individual e coletivo.
Dia desses estava eu no Quilombo Enraizados, trabalhando como sempre, e recebi a ligação do Vampiro, pedindo o endereço do Quilombo Enraizados. Horas depois ele apareceu, estava participando de um outro encontro no Rio de Janeiro, pegou o trem e chegou em Morro Agudo. Demos um rolé pela comunidade, levei ele pra conhecer o CISANE, ONG que atua em uma quebrada aqui de Nova Iguaçu chamada Nova Era.
Daí surgiu a ideia da entrevista. Que só veio se concretizar quando ele veio novamente no Rio de Janeiro, dessa vez com toda a equipe do Pontão Cultura Viva Hip Hop, onde pudemos nos reunir pra uma troca de ideia rápida no Estúdio da Hulle Brasil.
Bate-papo sobre cultura, produção e território no estúdio Enraizados.
Sebastião “Vampiro” é um dos nomes mais ativos do hip-hop no Amapá. Grafiteiro de formação e produtor cultural por necessidade, encontrou na cultura urbana não apenas sustento, mas uma forma de manter viva a criatividade e a educação popular dentro das periferias de Macapá. Seu nome de batismo é Sebastião Filho de Oliveira, mas o apelido que ganhou quando começou a andar de skate e de cross — e que com o tempo “ganhou corpo” — tornou-se sua identidade dentro do movimento.
Presente na cultura hip-hop desde os 13 anos, entrou através de um convite do B-boy Josiel, que também era grafiteiro e MC, para participar de um projeto na Escola GM. A ideia inicial era dançar, mas ele admite com humor que não conseguiu dar “nenhum passo”. No entanto, foi ali que se conectou definitivamente à arte: ao ver Josiel transformar spray em desenho, reconheceu o que já chamava sua atenção na pixação e se apaixonou pelo grafite à primeira vista. Aprendeu com o próprio Josiel, trabalhou ao seu lado por muitos anos e, por meio dessa arte, conseguiu se alimentar e sustentar sua família.
Hoje, Vampiro atua como produtor cultural, articulando não apenas ações ligadas ao hip-hop, mas também iniciativas relacionadas a outros elementos culturais do Estado do Amapá. Representa diversos artistas, organiza projetos e eventos, e segue centrado na cultura hip-hop como eixo de atuação. Em suas reflexões, discute estratégias de financiamento, os desafios de formar público pagante, o papel do Sistema Cultura Viva, o impacto da geografia na mobilização comunitária e o sonho de ver artistas locais lotando casas de show sem depender de grandes nomes de fora. Entre memórias, aprendizados e planos futuros, emerge uma visão de cultura entendida como política, cuidado, pertencimento e comunidade.
Espero que curtam essa troca de ideias, deixem suas intervenções nos comentários.
“Quando vi a lata virar desenho, foi amor à primeira vista.”
Registro da entrevista utilizando captura audiovisual com smartphone.
[Dudu de Morro Agudo] Tu falou que hoje tua atuação dentro da cultura hip-hop é produção cultural. Então tu é o cara que escreve projetos, capta recursos, faz os corre lá em Macapá?
[Sebastião Vampiro] Sim! Por muitos anos procurei conhecimento. Eu sabia da existência de recurso, sabia que tinha dinheiro ali, mas não sabia como captar. Comecei a estudar isso em 2013–2014, quando entrei para o Conselho Nacional de Cultura. Aprendi o caminho da engrenagem, percebi que precisava de projeto, e que o corpo do projeto tinha um formato. Comecei a estudar, escrever, amadurecer.
O primeiro edital que fui contemplado foi de 2018 para 2019. Depois veio a pandemia e as leis de emergência cultural. Como eu já entendia bastante de projeto, fui convidado por um parceiro, o Erlier, para trabalhar com execução e criação de projetos. Criamos vários e fomos selecionados representando artistas diversos.
Cara, eu te conheci em Porto Alegre. Tu é de Macapá, eu sou do Rio, e nos encontramos lá. Tu tinha sido indicado para esse trampo pelo Raffa Raffuage. Cada estado tem um hip-hop muito particular. Quem é o rapper mais respeitado do Amapá?
O mais respeitado dentro da cena é o Sid Castillo. De grupos, temos CSGV, Faces da Vida, Relatos de Rua, Raciocínio da Ponte, Função Real e Máfia Nortista. Mas pra mim, o rapper mais respeitado é o Sid Castillo. Ele é de Macapá. Ele e um mano conhecido como Brasília criaram o primeiro grupo de rap do estado: Filosofia Verbal.
Aqui no Rio, pouca coisa chega do Amapá. E a gente tem discutido sustentabilidade: artistas locais conseguirem lotar um lugar com 100 pagantes. Vocês pensam nisso? Existe alguém hoje que consegue colocar 100 pagantes?
Ainda não. Existe desvalorização. O mano faz um sarau e o ingresso custa 5 ou 10 reais. A galera diz que é caro. Mas pagam 70 pra ver Wesley Safadão. A cena não valoriza seus próprios artistas. E isso não é só no rap, também nas batalhas. Às vezes tem premiação, mas o cara não quer pagar 50 reais de inscrição. Não entende que existe gasto, estrutura, engrenagem.
Não é sobre ficar rico. É sobre pagar o café da manhã da família, levar a esposa pra passear. Vejo desvalorização da cena com seus próprios produtos culturais.
“Não é ficar rico: é pagar o café da manhã da família.”
Troca sobre sustentabilidade do hip-hop e políticas culturais periféricas.
O que leva a isso? Falta de compromisso com a cena local?
Pra mim é falta de consideração. Se for de graça, chamam. Mas não querem pagar cachê justo, não querem pagar DJ, b-boy… porém pagam 30 ou 40 mil para um cantor que não tem relação com o hip-hop.
Qual é a instituição que você faz parte lá?
Sou gestor da Casa de Cultura Hip-Hop Samaúma. Em 2014, com outros grafiteiros, fundamos o Centro Cultural Maracá. Hoje ele administra a Casa de Cultura e o Ponto de Cultura. Eu administro o Ponto e participo da gestão da Casa. Ainda não temos prédio, mas estamos negociando espaço, já temos verba garantida para manutenção, e vamos correr atrás de recursos para oficinas: hip-hop, informática, preparatórios, etc.
A Maracá tem 11 anos. Surgiu em 2010 como grupo de grafiteiros Forte Grafite. Depois se transformou em instituto cultural.
Explica o que veio fazer no Rio.
Dessa vez vim convidado pela equipe do Pontão Nacional de Cultura Hip-Hop, projeto aprovado em edital do Ministério da Cultura. Nosso primeiro encontro em Porto Alegre foi poucos meses depois da enchente trágica. Triste pela situação, mas com satisfação de iniciar um trabalho que hoje mostra muito resultado. Devido à geografia, não alcançamos 100%, mas o retorno foi grande.
“A cena paga 70 reais para um artista de fora, mas acha caro dar 10 reais para o mano da quebrada.”
Discussão sobre formação de público e valorização de artistas locais.
E amanhã, dia 30 de outubro de 2025, o que vai acontecer no Rio de Janeiro?
Vamos fazer a apresentação e encerramento da primeira fase do Pontão Nacional de Cultura Hip-Hop e o lançamento de um novo programa do Ministério da Cultura. Vamos apresentar resultados individuais e coletivos, incluindo o companheirismo criado ao longo de quase um ano.
Como foi a execução do projeto do Pontão Cultura Viva Hip Hop em Macapá?
Focamos no levantamento de coletivos, auxiliando no credenciamento no Mapa da Cultura e ID Cultura para inclusão no Cadastro Nacional de Pontos de Cultura. Levamos cursos sobre a importância do Sistema Cultura Viva. Não alcançamos 100% esperado, mas foi satisfatório ver o interesse da galera. É recurso público para cultura — quem apresenta um bom impacto e alcance, realiza.
Tivemos dificuldade geográfica. Moradia distante, ônibus lotado. Fizemos atividades sábados e domingos para facilitar.
Trouxe o Pajé, né?
Sim, Irathus Pajé. Moleque safo, bom produtor de beat. Participou da cypher rimando, fez refrão. Histórias da vida real: já vendeu empada pra sobreviver.
“A engrenagem da cultura não roda sem dinheiro.”
Visita e troca de ideias no CISANE, em Nova Iguaçu, durante agenda de Sebastião Vampiro no Rio de Janeiro.
Pra Maracá e pro hip hop local, valeu a pena participar do projeto?
Muito. Expandimos conhecimento para a cultura hip-hop local.
E os próximos passos? Próximos 10 anos?
Quero estar formado em Administração e Psicologia. Referente à Maracá, quero ver artistas lotando casas sem depender de grandes nomes externos. Não que não seja importante trazer Racionais, Gog… mas precisamos valorizar nossos pratas da casa.
É isso, irmão. Vamos publicar essa entrevista no Nó de Rede, obrigado.
Espero que você vá ao Amapá. Faz parte de um projeto meu te levar lá, referente ao RapLab, tua tese. Esse trabalho é muito comentado nacional e internacionalmente. Surpreendeu no alcance. Quero levar você e o Raffa Santoro para oficina sobre a importância da cultura hip-hop.
Dudu de Morro Agudo é rapper, educador popular e doutor em Educação. Fundador do Instituto Enraizados, é referência na articulação entre hip hop, formação políticas.
Criador da metodologia RapLab, já levou seu trabalho para escolas no Brasil, França e nos Estados Unidos, e apresentou pesquisas em eventos internacionais.
Com discos, livros e documentários no currículo, sua trajetória conecta arte, educação e transformação social a partir de Morro Agudo, Nova Iguaçu.
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