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Curso Popular Enraizados: Ver a juventude periférica furar a bolha educacional, essa é a meta!

Curso Popular Enraizados: Ver a juventude periférica furar a bolha educacional, essa é a meta!

A coluna de hoje vai ser dividida em parte e essa é a parte 01! Aproveitem e não deixem de comentar, para trocarmos ideias sobre esse assunto tão urgente.

Nessa nova coluna vou abordar nossa trajetória em 2 partes para não ficar extenso.

Tudo começou com um grupo improvável, gente diferente em quase tudo, origens, idades, trajetórias , mas unida por um mesmo propósito: romper o ciclo da exclusão e abrir caminhos reais para que a juventude periférica chegue à universidade.

Mas tudo era só vontade e mato, já que ocupamos um espaço que estava abandonado há mais de uma década. Após várias deliberações, fomos unindo forças com um grupo muito disposto a tecer uma metodologia que vai além de preparar esse(a) estudante para ingressar na universidade, propondo também um crescimento e evolução como cidadão, ser transformador e questionador na sociedade, que se conecta com a realidade e busca reconhecer suas verdadeiras origens.

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Aula Inaugural, no Quilombo Enraizados

Foi assim que nasceu a idéia do nosso curso de formação popular, um pré-vestibular social criado não apenas para ensinar conteúdos, mas para transformar perspectivas.

Nossa resposta foi simples e poderosa: organização coletiva.

Reunimos pessoas de diversas áreas , professores, artistas, produtores culturais, educadores populares, e criamos um espaço onde o aprendizado vai além das provas. É também um exercício de autoestima, pertencimento e construção de consciência crítica.

E por que isso é urgente?

Porque os números não mentem: segundo o IBGE, menos de 20% dos jovens das periferias chegam ao ensino superior, enquanto, entre os mais ricos, esse número ultrapassa 70%. A desigualdade educacional é uma barreira histórica, mantida por um sistema que naturaliza o fracasso dos nossos e glamouriza o sucesso dos poucos que conseguem “vencer”.

Implantar um curso popular é, portanto, um ato de resistência. Envolve desafios concretos: falta de estrutura, apoio financeiro, material didático e logística, mas também o enfrentamento simbólico de uma narrativa que insiste em dizer que “universidade não é lugar para a gente”.

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RapLab realizado com alunos do Curso Popular Enraizados

Mas ainda há muito o que fazer.

Para furar de vez a bolha educacional, precisamos:

  • Ampliar o apoio público e privado aos pré-vestibulares populares;
  • Garantir acesso digital e tecnológico a todos os estudantes;
  • Fortalecer redes comunitárias que conectem educação, cultura e território;
  • Reconhecer o educador popular como agente essencial de transformação social.

Ainda existe muita resistência dos órgãos de ensino em discutir e debater temas que estão presentes em todas as faixas e camadas sociais, e os assuntos que alcançam toda a população, mas muitas vezes os próprios educadores, não possuem o preparo ou o tempo necessário para abordar determinados temas como: geopolítica nacional e mundial, economia, política, tecnologia, sociologia, mundo do trabalho, artes, história  real), não a contada em livros defasados e desatualizados, saúde… entre muitos outros.

Assim vamos plantando nossas pequenas sementes e polinizando saberes.

Nos territórios da Baixada Fluminense, a meta de ver nossa juventude atravessar os muros da educação superior não é apenas um sonho,é uma revolução necessária.

O cenário que nos intriga e revolta.

Em Belford Roxo por exemplo, apenas 5,7% da população com 25 anos ou mais possui graduação.

Em Queimados, esse índice é 7,4%. Em São João de Meriti, 7,2%. Em Magé, 9%.

Comparativamente, o Brasil inteiro: segundo o IBGE, adultos com ensino superior passaram de 6,8% em 2000 para 18,4% em 2022.

Com esses números, soa o alarme de perigo. Não se trata de um “desafio local”, mas de uma afronta à justiça social. Quando menos de 10% dos adultos, em parte significativa da cidade, possuem graduação, precisamos entender que não estamos “falhando” por acaso — estamos sendo vítimas de estruturas que empurram muitos para fora, e nem nos damos conta disso, já que a necessidade (desesperadora) por um salário mínimo está esmurrando à porta.

Por que esse cenário grita por mudança ?

A educação superior deixa de ser apenas “uma porta aberta” e se torna um resultado de privilégios acumulados quando quem mora na periferia enfrenta barreiras múltiplas: infraestrutura frágil, transporte caro, falta de orientação e baixa autoestima.

A trajetória de ingresso na universidade (mostrada no estudo “O perfil de ingressantes no ensino superior da Baixada Fluminense”) revela que, mesmo com expansão no acesso, os estudantes que chegam enfrentam diferenças fortes de classe, raça e escolaridade de origem, que moldam seus cursos, escolhas e permanência.

Em resumo: a “bolha educacional” existe e ela nos cerca, invisível e opressora. E agora, temos também que apontar possíveis soluções. Para que a juventude periférica “fure a bolha”, precisamos agir com ousadia e articulação.

Aqui vão quatro eixos de ação:

  1. Pré-vestibulares populares com estrutura robusta
    1. Não adianta oferecer aulas se os estudantes precisam gastar horas de transporte, pagar materiais caros ou trabalhar em tempo integral para sobreviver. Precisamos de cursinhos gratuitos ou de baixo custo, localizados nas periferias, com apoio psicológico, alimentação, transporte.
  2. Integração território-educação-inovação
    1. A região da Baixada não pode mais ser “acessória” na cadeia de ensino, ela deve protagonizar. Isso significa fortalecer centros de educação superior locais, polos de tecnologia e inovação, parcerias com empresas e incentivos para que estudantes não precisem migrar para longe para estudar. A expansão e valorização de instituições como a UFRRJ é um exemplo de caminho possível.
  3. Políticas públicas que considerem a realidade
    1. Transporte subsidiado ou gratuito para quem estuda fora da cidade; auxílio para quem tem que trabalhar e estudar; reforço na educação básica para que os jovens entrem “preparados” na faculdade. Investir no 9.º ano, no ensino médio, nas comunidades.
  4. Cultura de pertencimento e protagonismo
    1. Furar a bolha não significa apenas chegar à universidade, significa ocupar espaços, questionar, transformar. O curso que vocês criaram (o pré-vestibular social) precisa também ser ( um lugar constante de formação de consciência crítica ), de identidade, de empoderamento. Quando jovens da periferia veem a si mesmos como protagonistas de ciência, arte, política e tecnologia, o mundo inteiro muda.

Um chamado à ação revolucionária

Não aceitamos que 90% das pessoas de uma região enorme fiquem à margem da universidade como se fosse “normal”. Esse fracasso não é natural, é sistemático. Quando algumas cidades têm menos de 6 % de adultos com curso superior, isso não é um dado triste, é uma bola de fogo lançada contra nós: “Escrevam-se os que puderem”. E quem não puder? Fica condenado? Não. Essa é a meta que temos de quebrar.

Se apenas 5,7% de adultos em Belford Roxo concluíram a graduação, precisamos multiplicar esse número por dez, por vinte. Precisamos que a própria periferia se veja como mecanismo de expansão, e não como “área de espera”. O poder público nas esferas federais , estaduais, e municipais precisam enxergar que esse projeto, ( prés ) é uma guerra cultural. Não é apenas “ensinar conteúdos” é reabrir o universo para quem foi hipnotizado por ideias de limite. É mostrar que universidade não é privilégio de outros, é direito nosso.

E mais: que, ao entrar e ocupar, os jovens levem consigo suas comunidades, suas histórias, suas vozes. Porque quando a juventude periférica ocupa as universidades, não é apenas uma conquista individual , é uma revolução silenciosa que muda o futuro inteiro de um território.

Na próxima coluna vou abordar alguns fatos, conquistas, curiosidades, enumerar dificuldades e próximos passos.

https://periodicos.ufrrj.br/index.php/rtps/article/view/733

(Artigo: perfil dos ingressantes no ensino superior da Baixada Fluminense)

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Samuca Azevedo é ator, diretor e produtor cultural de Nova Iguaçu. Integrou a primeira formação da Cia Encena de Teatro nos anos 1990 e foi um dos pioneiros do projeto Teatro em Sala. No Movimento Enraizados, estruturou a biblioteca e o telecentro, coordenou projetos como o Pontão de Cultura Preto Ghóez e o Projovem Adolescente, além de organizar oficinas, debates e eventos. Hoje, como presidente do Instituto Enraizados, articula ações culturais, educativas e comunitárias na Baixada Fluminense.

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