O que ficou do "Festival Brasil Baixada"
Na minha participação no Festival Brasil Baixada, entre fala, escuta, reencontros e articulações, saí com a certeza de que a Baixada Fluminense segue produzindo pensamento, liderança, cultura e caminhos coletivos de transformação.

O Festival Brasil Baixada, realizado no Museu Ciência e Vida, em Duque de Caxias, foi uma experiência que ainda está reverberando em mim.
Não foi surpreendente no sentido de expectativa, porque eu já sabia que estaria entre pessoas potentes, mas foi profundamente interessante pelo que provocou. Era um espaço de troca, escuta e articulação, daqueles que a gente sai diferente de como entrou.
Um dos grandes desafios que enfrentei ali foi condensar 25 anos de trajetória do Instituto Enraizados em apenas 15 minutos. Parece pouco, e é mesmo, mas ao mesmo tempo é um exercício muito revelador. Quando o tempo é curto, a gente é obrigado a escolher o que realmente importa.
E isso diz muito sobre o que a gente entende como essência.
Na minha fala, optei por apresentar a trajetória do Enraizados a partir de três eixos: sonho, queda e reinvenção. Não dava pra romantizar. Não dava pra contar uma história linear, bonitinha, como se tudo tivesse dado certo o tempo todo.
Os 25 anos do Enraizados são feitos de muitos acertos, mas principalmente de muitos erros e, mais importante ainda, da nossa capacidade de aprender com esses erros. É isso que sustenta a caminhada.
Falar nesses três eixos também foi uma forma de mostrar como o hip hop, a educação e a organização comunitária foram, e continuam sendo, ferramentas concretas de resistência e transformação em Morro Agudo. Nada ali é teoria distante: é prática cotidiana, construída no território, com gente de carne e osso.
E esse exercício de síntese me fez perceber uma coisa importante: o que a gente constrói não é só projeto, evento ou produto cultural. É uma forma de existir. Resistir, pra mim, não é só continuar, é ter coragem de se reinventar sem perder o sentido.
Outro ponto que me marcou muito foi rever pessoas que eu conheço há mais de duas décadas. Gente que segue na luta, mas que hoje também ocupa lugares de decisão, lugares de poder. Isso é foda, porque mostra que a nossa geração não só resistiu, ela também conseguiu avançar. A Baixada não forma só artista: forma liderança, forma pensamento, forma estratégia.
Fiquei muito impactado também com algumas falas e provocações. O nome do professor João Guerreiro, do IFRJ, apareceu o tempo todo. Praticamente todo mundo citou ele. E isso não é à toa. Tem gente que não só ensina, ajuda a estruturar o campo inteiro. E o João é uma dessas figuras.
Ver a Giordana Moreira falando da empresa dela também foi muito potente. Uma mulher da Baixada, com trajetória sólida na produção cultural, ocupando esse lugar com propriedade. Isso é muito simbólico. A profissionalização da cultura na periferia está acontecendo e as mulheres têm sido protagonistas nesse processo.
O Jéz também me chamou muita atenção. Eu já conhecia o trampo dele como cantor, mas ali vi um cara que também é produtor, empresário, comunicador. Um perfil completo. Ele mostra na prática que hoje em dia, produzir experiências culturais exige múltiplas habilidades, não dá mais pra ficar só em uma frente.
Uma coisa que me deixou muito feliz foi ver meus alunos do CPPEC presentes, porque a gente sabe que Produção cultural não se aprende só na teoria, se aprende vivendo, olhando, participando. Eles puderam acompanhar tudo de perto, entender como esse tipo de evento funciona, observar os bastidores.
E teve um momento que realmente me atravessou: a fala da Selminha Sorriso, da Beija-Flor. Eu não conhecia a história dela a fundo, ouvi um pouquinho no início, tive que sair e quando voltei ela não estava mais, acho que não falou os 15 minutos, mas o pouco que ouvi, foi realmente impactante.
Um ponto interessante e quase uma surpresa desse encontro foi perceber o crescimento de Wesley Teixeira como liderança política e articulador de ideias para a Baixada Fluminense. Não apenas pela capacidade de mobilização que hoje ele demonstra, mas pela maturidade com que formula propostas, ocupa espaços e sustenta um pensamento cada vez mais estratégico.
Nas conversas de corredor e também nas falas públicas, ficou evidente para mim que ele vem consolidando uma visão menos imediatista e mais estruturada, preparada para disputar projeto de região e de futuro.
O que apareceu em sua fala não foi uma leitura estreita da Baixada, mas a compreensão de que estamos diante de uma região metropolitana complexa, com potência econômica, densidade populacional, produção cultural própria e enorme capacidade de articulação.
Ao tensionar temas como investimento, circulação de riqueza, responsabilidade social e valorização da cultura como vetor de desenvolvimento, ele reforça uma agenda que considero central: a construção (e reformulação) de políticas públicas e outras ferramentas capazes de preservar e potencializar a tecnologia social produzida na região, reconhecendo a força simbólica, cultural e econômica de um território de milhões de pessoas que já produz muito, mas ainda sem o devido reconhecimento material.
Saí de lá também com ideias. Uma delas é levar pro Enraizados esse formato de evento, algo nessa linha de encontros de fala mais direta, tipo TEDx, mas com a nossa cara. vai ser maneiro. Tem coragem de colar??? rsrsrs
O after também foi "maneiro", mas podia ter sido melhor, falou CPPEC neles. (Pausa pra propaganda)
Fui um dos primeiros a chegar, junto com Samuca Azevedo. Depois foram chegando Imperatriz, Jhon, Dorgo e também Ana Paula Gualberto, que ficou com a gente curtindo os sets da Suave Preta (a braba). Ainda pegamos um pouco da roda de samba, num clima leve, de encontro e troca, daqueles momentos em que a noite parece seguir rendendo conversa, música boa, conversa e chopp de graça.
Acabamos indo embora antes da apresentação do Maui, mas depois soube que rolou um caô e ele sequer conseguiu concluir o show. Mesmo assim, o after valeu como mais um espaço de convivência, articulação e fruição, onde também a gente vai percebendo a potência das relações que vão sendo construídas para além da programação oficial.
No fim das contas, o que mais ficou pra mim foi a importância do encontro. Do estar junto. Das conexões. Dos olhares que se cruzam e viram parceria depois.
Na Baixada Fluminense, ninguém constrói nada sozinho. O caminho é coletivo e precisa ser cada vez mais estratégico.
Agora é transformar tudo isso em ação. Fui!!!
Galeria

Rebeca Brandão

Giovanna Curty

João Guerreiro

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Giordana Moreira

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