Nova Iguaçu precisa renovar sua política
A democracia só avança quando novos sujeitos encontram condições reais de participar e disputar o poder.

Neste ano vivemos sob uma tutela política que visa estender os tentáculos de controle e influência em todas as esferas possíveis.
Cheguei a essa conclusão, porque observando a movimentação atual percebi uma brutal diminuição nas aglomerações e a proliferação endêmica que sempre acontece nessa época. Isso reflete algo que constatamos nesses últimos meses de governo estadual no RJ.
O que parece:
Os partidos que tinham funcionários fantasmas e cargos comissionados foram desidratados de forma contumaz. Esse golpe refletiu em recursos esvaziados para os candidatos que só servem para fechar a conta das legendas partidárias nas vagas de candidaturas dos partidos. (Os chamados candidatos - legenda, os ditos, "bucha").
Então só restaram os caciques que estão consolidados e com uma robusta conta bancária para bancar essa estrutura que não é barata. Isso como consequência blinda mais os grupos que já concentram poder fora da disputa eleitoral. Existe uma manipulação dos recursos que a atual situação dos partidos deixa à mostra.
Quem realmente vai disputar esses cargos e os que são somente figurantes. Isso implica numa baixíssima qualidade dos candidatos com real chance de votação expressiva. Resta a pergunta, a quem interessa uma disputa muito mais limitada ? e o que se perde enquanto cidade, quando esse jogo está cada vez mais afunilado ?
O paradoxo de Nova Iguaçu:
Nova Iguaçu é uma cidade que possui problemas gigantescos, basta um circulada pela cidade, e uma população socialmente diversa: juventude periférica, trabalhadores, estudantes, comerciantes, empreendedores, profissionais liberais, artistas, produtores culturais, movimentos sociais, comunidades religiosas, população negra, mulheres, pessoas com deficiência e milhares de pessoas que vivem diariamente os efeitos das desigualdades da Baixada Fluminense.
Mas onde estão essas vozes na disputa eleitoral ?
Onde estão os jovens ?
Onde estão os estudantes das escolas públicas ?
Onde estão os trabalhadores que enfrentam diariamente longos deslocamentos ?
Onde estão os produtores culturais ?
Onde estão os moradores das periferias que conhecem profundamente os problemas de seus bairros ?
Onde estão as novas lideranças que não possuem sobrenome político, estrutura empresarial ou uma máquina eleitoral ?
Se essas pessoas não conseguem transformar sua experiência cotidiana em representação política, alguma coisa está falhando no sistema de renovação democrática.
A juventude pode ser a maior prejudicada.
Esse problema é particularmente grave para a juventude, que mais uma vez será usada como massa eleitoral.
O jovem de Nova Iguaçu não vive apenas uma discussão abstrata sobre política. Ele vive problemas concretos: acesso à universidade, transporte, primeiro emprego, formação profissional, cultura, esporte, saúde mental, tecnologia, segurança, mobilidade e perspectivas de futuro.
Quando a política municipal, estadual e federal se fecha em torno de estruturas já consolidadas, o jovem passa a enxergar a política como algo distante.
E quando a juventude se afasta da política, outros ocupam esse espaço.
O resultado pode ser uma democracia formalmente aberta, mas socialmente pouco disposta à renovação.
Uma cidade que não consegue renovar suas lideranças corre o risco de renovar apenas os nomes, enquanto mantém intactas as mesmas estruturas de poder.
A questão não é apenas quem vence, mas como e em quais territórios .
O que poderia mudar?
A resposta não está simplesmente em trocar um político por outro.
Nova Iguaçu precisa construir uma cultura permanente de formação política, participação popular e renovação de lideranças.
Algumas mudanças poderiam começar a surtir efeitos, com as reuniões encontros e deliberações:
1. Transparência radical dos recursos eleitorais:
A população precisa acompanhar não apenas quanto cada candidato recebeu, mas de onde vieram os recursos, como foram distribuídos e quais candidaturas receberam efetivamente estrutura. Porém existe uma total rede de desinformação trabalhando em conjunto, que parece sinônimo de pecado tocar nesses temas.
2. Formação política da juventude:
Escolas, universidades, coletivos culturais, organizações sociais e movimentos comunitários poderiam criar programas permanentes de educação política e cidadania.Essa é uma luta que precisa ser travada em várias frentes, e que possui várias camadas.
3. Democratização das estruturas partidárias:
Os partidos precisam criar mecanismos transparentes para permitir que novas lideranças tenham acesso real às decisões, recursos e oportunidades eleitorais. Mas enquanto esse formato onde gente, retrógrada, e que não quer soltar o osso do poder, cito também as forças mais à esquerda também.
4. Valorização de candidaturas comunitárias:
Lideranças que atuam em educação, cultura, esporte, meio ambiente, assistência social e organização comunitária precisam ser reconhecidas como potenciais agentes políticos , e não apenas como cabos eleitorais. É mais do que preciso eliminar ( no bom sentido ), a figura do intermediário com a comunidade local.
5. Debate público baseado em projetos:
A cidade precisa discutir metas objetivas: educação, transporte, saúde, desenvolvimento econômico, cultura, segurança, meio ambiente, juventude e redução das desigualdades territoriais. Mas não nos moldes convencionais, onde o intermediário o faz sempre com alguma intenção pessoal escondida.
6. Observatório permanente da democracia local:
Universidades, organizações da sociedade civil, imprensa e movimentos sociais poderiam acompanhar eleições, financiamento, perfil das candidaturas, representação territorial, gênero, raça, idade e resultados eleitorais, isso limitaria as pesquisas tendenciosas.
7. Participação política para além das eleições:
Democracia não pode acontecer somente a cada dois anos. Conselhos, audiências públicas, orçamento participativo, conferências e mecanismos digitais de participação precisam funcionar de forma concreta, e discutida em todas as esferas sociais. Com isso podemos começar a desaparelhar os grupos que estão infiltrados nas camadas municipais, estaduais e federais.
Nova Iguaçu precisa discutir o seu futuro … não apenas sua próxima eleição !
O maior perigo talvez não seja uma eleição ser vencida por determinado grupo.
O verdadeiro risco é a cidade se acostumar com a ideia de que somente determinados grupos podem vencer.
Quando isso acontece, a política deixa de ser percebida como espaço de disputa entre diferentes projetos de sociedade e passa a ser percebida como território reservado a quem já possui estrutura.
E essa percepção é especialmente perigosa entre os jovens.
Porque uma geração que acredita que “política não é para gente como nós” já perdeu uma parte importante da sua cidadania antes mesmo de votar.
Nova Iguaçu não precisa apenas de novos candidatos.
Precisa de novas condições para que novos candidatos possam existir.
Precisa de mais competição, mais transparência, mais participação, mais formação política e mais capacidade de transformar os problemas reais dos territórios em projetos de poder público.
Depois de duas décadas de alternância e continuidade entre diferentes grupos e lideranças, talvez a pergunta mais importante para 2026 não seja quem ocupa determinado cargo.
A pergunta é:
Que tipo de democracia Nova Iguaçu quer construir para os próximos anos ?
Porque, se continuarmos apenas trocando os nomes sem modificar as condições que determinam quem consegue chegar ao poder, poderemos estar diante de uma mudança eleitoral sem verdadeira renovação política.
E uma cidade que não renova sua política, dificilmente conseguirá renovar seu futuro.
O que Nova Iguaçu deveria fazer?
Criar um Observatório da Democracia de Nova Iguaçu .
Uma iniciativa independente poderia acompanhar:
Financiamento eleitoral; gastos; perfil das candidaturas; idade; gênero; raça/autodeclaração; território; votação por bairro; renovação; reeleição; composição partidária; participação da juventude.
Isso permitiria discutir política com dados;
Criar um ranking de transparência eleitoral;
Não para dizer em quem votar;
Mas para mostrar:
Quem recebeu quanto, quem gastou, quanto e como os recursos foram distribuídos.
Criar escolas de formação para jovens lideranças,
Uma espécie de “escola de governo e cidadania” da sociedade civil, ensinando:
orçamento público; legislação; políticas públicas; comunicação; elaboração de projetos; funcionamento do Legislativo; funcionamento do Executivo; prestação de contas; participação social.
Pensar mecanismos para, democratizar os partidos:
Isso poderia ser feito com esses GTS, monitorando como os partidos deveriam agir na distribuição de recursos e implantação da estrutura entre candidaturas.
Isso reduziria a sensação e permitiria investigar a realidade de que alguns candidatos entram na disputa com uma máquina completa enquanto outros recebem apenas o necessário para existir formalmente.
Criar GTS de debates permanentes sobre projetos de cidade:
Não apenas debates entre candidatos.
Debates sobre: educação; juventude; cultura; transporte; desenvolvimento econômico; meio ambiente; segurança; saúde; urbanização; tecnologia, enfim, temas que atravessam diariamente os moradores e as pessoas que realmente vivem a cidade. Transformar a juventude em protagonista, deveriam ser metas prioritárias.
A juventude precisa estar: na formulação; na fiscalização; na produção; na comunicação; nos conselhos; nos partidos; nos espaços de decisão; e, naturalmente, nas eleições. A pergunta que ninguém deveria evitar :
Você sendo eleito ( a ), realmente vai se dedicar a buscar soluções, reais e replicáveis, ou visa somente sua ascensão e escalada política ??
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