Entre o que fomos e o que estamos construindo

Escrevo esta coluna a partir das reflexões provocadas pela aula inaugural do Curso de Extensão Cultura de Rua, realizada na UERJ, no dia 6 de agosto de 2026. A partir dessa experiência, reflito sobre memória, formação política e os caminhos que aproximam o Hip Hop e a universidade. Ao olhar para a minha trajetória, para a história do Enraizados e para as novas gerações, penso nos encontros entre diferentes tempos e na maneira como aquilo que construímos no passado é constantemente retomado, reformulado e recriado por novas mãos, novas mentes e outros contextos.

Dudu de Morro Agudo8 de agosto de 2026, 01:20
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Entre o que fomos e o que estamos construindo

Ontem aconteceu a aula inaugural do Curso de Extensão Cultura de Rua, desenvolvido pelo Laboratório de Cultura Hip-Hop — Batalha do Real + UERJ — Universidade do Estado do Rio de Janeiro, por intermédio da Faculdade de Educação, e financiado por Emenda Parlamentar Estadual, de autoria da deputada Renata Souza. É um percurso formativo que vai acontecer na UERJ até o final deste ano.


A mesa reuniu Renata Souza, o professor Roberto Santana, Aori Sauthon, César Schwenck, Aika Cortez, Jef Rodriguez, Funkero e eu, Dudu de Morro Agudo, com mediação do Rodas e Rimas. A programação teve ainda pocket shows de Afrodite BXD e Funkero, DJ Jef Rodriguez e Negra Rê como mestre de cerimônias.


Foi uma experiência quase catártica.


A UERJ define o curso como uma formação “acadêmica e político-cultural”, articulando teoria, prática e criação artística e tomando o Hip Hop, simultaneamente, como movimento social, linguagem estética e ferramenta de produção de conhecimento.


Faço parte do corpo docente do curso, no eixo dedicado à História do Hip Hop e às políticas públicas, a partir de um convite do César Schwenck (Cezinha), produtor da Batalha do Real.


Quando ele me chamou, aceitei na mesma hora.


Isso me fez lembrar de uma conversa que tive ontem, durante o evento. Um rapaz comentou comigo: “Tá muito bonito isso aqui. Todo mundo veio.”

Eu respondi que, quando quem convida tem prestígio, as pessoas comparecem. Nem sempre é preciso explicar tudo.


A partir do filósofo ganense Kwame Anthony Appiah, podemos pensar o prestígio em relação à honra e ao reconhecimento social: uma forma de estima que uma pessoa — ou mesmo um coletivo — constrói dentro de uma comunidade à medida que sua trajetória passa a representar valores reconhecidos e compartilhados por ela.


Foi exatamente o que aconteceu ontem. Aquele auditório estava cheio de gente, principalmente porque as pessoas confiavam em quem construiu aquele espaço.

Quando o Cezinha me fez o convite, eu tinha acabado de concluir o Festival Caleidoscópio e havia tomado uma decisão: não assumiria mais nenhum trabalho naquele período. Queria me dedicar aos estudos e organizar toda a documentação para um projeto importante do próximo ano.


Mas existem pessoas cuja trajetória faz com que a gente diga “sim” antes mesmo de entender todos os detalhes. Foi o que aconteceu.


Quebrei uma regra que eu mesmo havia criado e, hoje, tenho certeza de que foi uma das melhores decisões que tomei. O curso ainda nem começou de verdade, mas só a aula inaugural já valeu completamente a pena.


O interessante é que, antes mesmo de existir o Curso de Extensão Cultura de Rua, o Cezinha esteve no Quilombo Enraizados. Nós nos reaproximamos, começamos a conversar sobre a vida, sobre nossos caminhos. Temos estilos de vida bastante diferentes, mas descobrimos que continuávamos compartilhando valores muito parecidos. Isso me deixou muito feliz.


À medida que fui conhecendo melhor o projeto, percebi que ele dialogava profundamente com tudo o que venho pensando e com aquilo que o Instituto Enraizados vem produzindo nos últimos anos.


Na última edição do Festival Caleidoscópio, realizamos a Conferência Internacional de Educação Clandestina.


Já estamos discutindo, há bastante tempo, os saberes produzidos nas periferias e o conhecimento que também está sendo construído dentro das universidades por esses novos sujeitos que passaram a ocupar o ensino superior.


A Conferência nasce justamente desse encontro. Ela propõe uma troca de experiências entre os saberes populares e os saberes acadêmicos. O conhecimento produzido na universidade precisa voltar para as ruas. Precisa chegar às pessoas. Da mesma forma, aquilo que é produzido nas ruas também precisa ser reconhecido como conhecimento legítimo.


Desde o início, entendemos que a educação é um direito, mas também acreditamos que a experiência universitária transforma as pessoas para além do diploma.

Foi pensando nisso que, há cerca de cinco anos, criamos o Curso Popular Mãe Beata de Iemanjá, o pré-vestibular do Instituto Enraizados, conhecido também como Curso Popular Enraizados.


Não criamos um curso apenas para aprovar estudantes no ENEM. Criamos um espaço de formação crítica e cidadã.


Esse curso está integrado a todo o ecossistema do Instituto Enraizados. Nós temos uma máxima que orienta tudo o que fazemos: tudo o que o Enraizados faz, o Enraizados ensina a fazer.


Por isso, enxergamos cada projeto como um processo educativo.


Hoje, esse movimento se materializa nas diversas parcerias que construímos com um monte de universidades.


Sou vinculado à UFF — Universidade Federal Fluminense, onde fiz o mestrado e o doutorado em Educação e onde participo do grupo de pesquisa JICs — Juventudes, Infâncias e Cotidianos. Desenvolvo projetos com professores da UFRJ — Universidade Federal do Rio de Janeiro, da UFRRJ — Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e do IFRJ - Instituto Federal do Rio de Janeiro, de Nilópolis, especialmente com o professor João Guerreiro.


Muitos estudantes do nosso curso popular hoje cursam Produção Cultural no IFRJ.


Há também um projeto que desenvolvemos junto à UFRRJ, por meio dos professores Alexandre Fortes e Jean Rodrigues Sales, e que recebeu apoio internacional do Modern Endangered Archives Program, da UCLA Library — UCLA - University of California, Los Angeles.


O projeto, chamado “Movimentos Sociais e Resistência Democrática na Baixada Fluminense”, reúne cinco importantes acervos da região para preservação e digitalização. O Instituto Enraizados é a instituição anfitriã do projeto, e seu acervo fotográfico é um dos conjuntos documentais selecionados.

Isso significa que registros produzidos ao longo da nossa trajetória no Hip Hop passam a ser reconhecidos também como documentos da história social e política da Baixada Fluminense.


Há quase uma década participo de projetos de pesquisa e intercâmbio com universidades como a Duke University e a North Carolina Central University, nos Estados Unidos, que conectam essas universidades à Baixada Fluminense, à UFRRJ e ao Instituto Enraizados.


Ao longo desse processo, o RapLab — objeto das minhas pesquisas de mestrado e doutorado — deixou de aparecer apenas como uma experiência que realizávamos em Morro Agudo e passou a ser estudado, experimentado e aplicado também em escolas e salas de aula nos Estados Unidos, graças aos convites e às parcerias construídas com o professor John French.


Essa relação ganhou ainda mais força com a NCCU, uma universidade historicamente negra, e com projetos conjuntos sobre Hip Hop, educação libertadora, antirracismo, ativismo e cidadania, em colaboração com a professora Gladys Mitchell-Walthour. Professores e estudantes vieram à Baixada, nós fomos aos Estados Unidos, artistas do Enraizados passaram a circular por esses espaços e construímos uma verdadeira troca de conhecimentos.


Ao mesmo tempo, seguimos profundamente conectados às escolas públicas dos nossos territórios. Há muitos anos atuamos no CIEP 172 — Nelson Rodrigues, no CIEP 216 — Prefeito Juarez Antunes, no CIEP 117 — Carlos Drummond de Andrade e no Colégio Estadual Comendador Soares.

Em parceria com a UFRRJ e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, dentro de um projeto coordenado pelo professor Álvaro Pereira do Nascimento, que pesquisa João Cândido há mais de 30 anos, o Enraizados está levando a história de João Cândido e da Revolta da Chibata para escolas públicas da Baixada Fluminense, através do RapLab.


Já realizamos atividades no CIEP 216 — Prefeito Juarez Antunes, no CIEP 117 — Carlos Drummond de Andrade, no Colégio Estadual Jardim Alvorada, em Nova Iguaçu, no CIEP 175 — José Lins do Rego, em São João de Meriti, e também no Festival Paracambi Literária 2026, em Paracambi.


Em todas elas, o RapLab foi utilizado como uma atividade para provocar discussões sobre história, cidadania e formação política.


Quando cheguei ontem à UERJ e vi aquele auditório lotado, senti o peso simbólico daquele momento.

Vi a deputada Renata Souza, vi a ex-ministra Anielle Franco. Tem muito peso nisso tudo, em todo esse contexto dos últimos 25 anos.


Vi parceiros de uma vida inteira. Vi o Aori, o Cezinha, o Big Tiger, o Airá, a Negra Rê, o Jef e tantas outras pessoas que vêm construindo essa história há décadas.


Mas também vi algo que me emocionou ainda mais: uma enorme quantidade de jovens das novas gerações, muitos deles do próprio Enraizados, inscritos no curso e ocupando aquele espaço universitário.


E talvez uma das maiores forças do Hip Hop esteja justamente nessa capacidade de se renovar sem precisar apagar aquilo que veio antes. Leda Maria Martins, quando fala do tempo espiralar, nos ajuda a entender que o tempo não precisa ser pensado como uma linha reta, em que uma geração termina para que outra comece. Passado, presente e futuro se encontram, se atravessam e se reorganizam o tempo inteiro. Aquilo que veio antes permanece, mas volta transformado em outros corpos, outras vozes, outras estéticas e outras maneiras de compreender o mundo.


Estamos vendo um conhecimento produzido nas ruas sendo sistematizado, debatido, pesquisado e reconhecido. Um conhecimento que, durante muito tempo, permaneceu à margem e que agora disputa espaço dentro das instituições.


Ontem eu olhava ao redor e via nossos mais velhos, via as famílias, via minha companheira, minha filha, meus amigos, meus parceiros de caminhada.

E senti duas coisas ao mesmo tempo.


A primeira foi perceber que estamos envelhecendo.

Nós nos tornamos a geração que hoje ajuda a abrir caminhos para quem vem depois.

E talvez por isso que a memória tenha se tornado uma preocupação tão importante para mim.


Foi desse incômodo que nasceu também a Cartografia do Hip Hop de Nova Iguaçu: da necessidade de registrar nomes, lugares, histórias, movimentos, encontros e pessoas que ajudaram a construir o Hip Hop na cidade, antes que tudo isso se perdesse.


A Cartografia funciona como um repositório da história do Hip Hop de Nova Iguaçu, um espaço onde parte dessa memória passa a ficar organizada, registrada e disponível para quem vier depois. De alguma forma, ela se torna também uma guardiã dessa memória, porque preserva histórias que muitas vezes ficaram apenas na lembrança de quem viveu, em fotografias guardadas em gavetas, em relatos espalhados ou na memória oral das quebradas.


Quando uma geração começa a envelhecer, ela também precisa assumir a responsabilidade de contar sua própria história. Porque, se a gente não registra, alguém pode contar por nós. E pode contar errado. A Cartografia do Hip Hop de Nova Iguaçu nasce também dessa responsabilidade: garantir que as próximas gerações saibam que existia Hip Hop aqui, que existiam pessoas organizando, criando, educando, produzindo cultura e transformando seus territórios muito antes de isso ser reconhecido pelas instituições.


A segunda foi perceber que aquele espaço da universidade se transformou em um ponto de encontro. Um lugar onde pessoas de diferentes regiões do Rio de Janeiro — e do Brasil — se encontram, se encontraram e se encontrarão para imaginar futuros possíveis, criar projetos, produzir conhecimento, arte e afeto.


Acho que essa nossa geração acertou quando decidiu colocar as pessoas no centro de tudo.


Como foi dito ontem, de várias formas diferentes e por pessoas diversas: produzir conhecimento, produzir arte e produzir afeto continuam sendo atos profundamente políticos.


Ontem eu consegui enxergar isso materializado.

Saí da UERJ profundamente grato.

Grato ao Cezinha pelo convite.

Grato a todas as pessoas que construíram aquele momento.

E, sobretudo, grato ao Hip Hop.


Porque, olhando para trás, percebo que o Hip Hop não apenas transformou minha vida.

O Hip Hop impediu que eu me tornasse alguém de quem eu não sentiria orgulho.





Referências e links para aprofundamento


AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DAS FAVELAS. 

Batalha do Real completa 18 anos. ANF, 17 dez. 2021. Disponível em: https://www.anf.org.br/batalha-do-real-completa-18-anos/. Acesso em: 7 ago. 2026.


AGUDO, Dudu de Morro [Flávio Eduardo Assis]. O Raplab e suas redes: uma rima entre arte e formação política. 2025. 180 f. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2025. Disponível em: https://app.uff.br/riuff/handle/1/39020. Acesso em: 7 ago. 2026.


AGUDO, Dudu de Morro [Flávio Eduardo Assis]; REIST, Stephanie. O rap e a educação: quando aprender faz sentido. Políticas Culturais em Revista, Salvador, v. 11, n. 2, p. 58–78, 2018. DOI: 10.9771/pcr.v11i2.28684. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/pculturais/article/view/28684. Acesso em: 7 ago. 2026. (Periódicos UFBA)


AGUDO, Dudu de Morro [Flávio Eduardo Assis]. Rap na Baixada, rap no mundo: o RapLab tecendo redes educativas. 2020. 107 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2020. Disponível em: https://app.uff.br/riuff/handle/1/16797. Acesso em: 7 ago. 2026.


APPIAH, Kwame Anthony. O código de honra. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535920444/o-codigo-de-honra. Acesso em: 7 ago. 2026.


CARTOGRAFIA DO HIP HOP DE NOVA IGUAÇU. Sobre a Cartografia do Hip Hop de Nova Iguaçu. Nova Iguaçu, [s. d.]. Disponível em: https://cartografiahiphop.org/sobre/. Acesso em: 7 ago. 2026.


DUKE UNIVERSITY. BASS CONNECTIONS. Hip Hop Pedagogies: Education for Citizenship in Brazil and the United States (2023–2024). Durham, [s. d.]. Disponível em: https://bassconnections.duke.edu/project/hip-hop-pedagogies-education-citizenship-brazil-and-united-states-2023-2024/. Acesso em: 7 ago. 2026.


DUKE UNIVERSITY. BASS CONNECTIONS. Hip-Hop as education and inspiration in Brazil and the United States. Bass Connections, 7 fev. 2024. Disponível em: https://bassconnections.duke.edu/news/hip-hop-education-and-inspiration-brazil-and-united-states/. Acesso em: 7 ago. 2026.


GRUPO DE ESTUDOS COM JUVENTUDES, INFÂNCIAS E COTIDIANOS – JICs. O JICs. Universidade Federal Fluminense, [s. d.]. Disponível em: https://www.jicsuff.com/. Acesso em: 7 ago. 2026.


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NASCIMENTO, Álvaro Pereira do. A atualidade de João Cândido e da Revolta da Chibata. Afro-Ásia, Salvador, n. 70, p. 669–676, 2025. DOI: 10.9771/aa.v0i70.65890. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/65890. Acesso em: 7 ago. 2026.


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SOARES, Ravelly Machado; AGUDO, Dudu de Morro [Flávio Eduardo da Silva Assis]; ANDRADE, Nivea Maria da Silva. Em Jardim Primavera tem flores? Em Nova Iguaçu tem vulcão?: provocando narrativas outras sobre ambiente e Baixada Fluminense. Revista de Ensino de Biologia da SBEnBio, v. 16, n. 1, p. 19–36, 2023. DOI: 10.46667/renbio.v16i1.1069. Disponível em: https://renbio.org.br/index.php/sbenbio/article/view/1069. Acesso em: 7 ago. 2026.




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