Educação popular no centro do debate nacional
O Encontro Nacional dos Cursos Populares marca um passo histórico no reconhecimento de iniciativas que transformam a realidade educacional das periferias brasileiras.

Nos dias 8 e 9 de dezembro de 2025, estive em Brasília participando do Encontro Nacional dos Cursos Populares (CPOP), um marco histórico para a educação popular no Brasil. O evento reuniu quase 400 cursos preparatórios que atuam diretamente na formação cidadã de jovens e adultos, conectando o processo educativo à realidade concreta dos territórios onde estão inseridos.
Esses cursinhos realizam um trabalho fundamental junto à juventude e a populações vulnerabilizadas, lidando com dinâmicas sociais, econômicas e culturais profundamente distintas entre si. Os diferentes “Brasis” presentes no encontro escancararam o quanto o país é desigual e reforçaram a necessidade de um programa educacional articulado entre municípios, estados e governo federal. Nenhuma política pública educacional se sustenta se não houver sintonia entre as forças institucionais.
Os relatos vindos principalmente das regiões Norte e Nordeste evidenciaram o abismo da desigualdade social e seus impactos diretos na educação de crianças, jovens e adultos. Enquanto algumas organizações, mesmo sem apoio algum, conseguem resultados expressivos, outras iniciativas ligadas a políticos ou instituições religiosas mascaram doutrinação como educação, oferecendo um trabalho, no mínimo, medíocre.
Além disso, foram debatidos obstáculos estruturais como dificuldades de locomoção, violência nos territórios, interferências políticas e catástrofes naturais evitáveis. Um conceito que gerou profunda reflexão foi o de insalubridade ambiental: situações em que moradores tentam manter condições mínimas de habitação, mas são abandonados pelo poder público. Falta de saneamento básico, lixões a céu aberto, resíduos industriais sem tratamento e matadouros clandestinos despejando resíduos em rios usados para consumo humano resultam em doenças que remetem a cenários medievais.
Apesar desse cenário, o saldo do encontro foi extremamente positivo. Diversas iniciativas estão na linha de frente do enfrentamento às desigualdades, criando soluções concretas para demandas históricas. Pela primeira vez, a educação popular nacional ocupou Brasília para discutir seus rumos, métodos e a necessidade de apoio institucional.
Para quem observa de fora, pode parecer apenas mais um evento institucional. Para quem constrói a educação nas periferias, trata-se de um reconhecimento histórico — tardio, mas essencial — de uma luta que sempre existiu à margem das políticas públicas. Os cursinhos populares não nasceram de editais ou gabinetes climatizados, mas da urgência e da ausência do Estado.
Essas iniciativas surgiram da necessidade concreta de preparar jovens pobres, negros e periféricos para disputar vagas em universidades historicamente reservadas a poucos. Durante décadas, sobreviveram por meio de trabalho voluntário, doações e resistência. Agora, começam a ser reconhecidas como o que sempre foram: instrumentos estratégicos de justiça social.
Na Baixada Fluminense, essa realidade é ainda mais evidente. Escolas precarizadas, longos deslocamentos, trabalho precoce e ausência de acesso a bens culturais tornam o sonho universitário quase inalcançável. Ainda assim, os cursinhos populares seguem firmes, funcionando como trincheiras de formação crítica, pertencimento e transformação social.
O CPOP não pode ser tratado como ação pontual ou simbólica. Garantir suporte técnico e financeiro a esses cursinhos é uma medida urgente e estratégica. Não se trata de caridade, mas de correção histórica. Não há democracia possível enquanto o ensino superior continuar sendo um privilégio hereditário.
Durante o encontro, diversos Grupos de Trabalho (GTs) apresentaram propostas e discutiram temas sensíveis. Ao final, foi entregue uma carta de intenções com potencial para fortalecer significativamente o programa, embora algumas medidas ainda dependam de aval econômico e jurídico. Caso implementadas, poderão gerar mudanças relevantes já a partir de 2026.
A educação que transforma não nasce de discursos vazios. Ela nasce da organização popular, da pressão política e do compromisso real com quem sempre esteve fora das decisões.
Reconhecer os cursinhos populares é reconhecer que, sem a periferia no centro do projeto nacional, não há futuro possível para o Brasil.
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Samuel Azevedo

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Comentários (4)
Dudu de Morro Agudo
Muito bom Samuca, parabéns!!!
Samuel Azevedo
Obrigado!
Dudu de Morro Agudo
De nada.
Dudu de Morro Agudo
Essa atenção que o governo tem dado para os cursos populares e pré-vestibulares do Brasil, com certeza tem ajudado muito a estruturar algo que é fundamental para a mobilidade social de milhares de brasileiros. Parabéns por se doar tanto, Samuca,