Do Quilombo à Universidade: O conhecimento que não pede passagem.

A segunda leva de trabalhos da Conferência Internacional de Educação Clandestina desafiou expectativas de gênero, expôs a branquitude na academia e reafirmou o Quilombo como espaço de produção de saber.

Editor6 de julho de 2026, 13:32
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Do Quilombo à Universidade: O conhecimento que não pede passagem.

No primeiro dia do Festival Caleidoscópio 2026 - Educação Clandextina, aconteceu a I Conferência Internacional de Educação Clandestina, reunindo educadores, artistas, pesquisadores, lideranças comunitárias, estudantes e representantes de movimentos sociais para dialogar sobre experiências de formação política, cultural e cidadã que acontecem dentro e fora da escola. Durante a tarde do primeiro dia, tivemos a segunda leva de apresentação de trabalhos da CIEC.


A primeira apresentação da parte da tarde da Conferência ficou por conta de André Luiz das Graças de Sá.


“Os relatos mostram que essas masculinidades desviam e ressignificam as expectativas de gênero impostas pela sociedade em cima desses corpos [...]”

André Luiz, na I Conferência Internacional de Educação Clandestina.


André Luiz é licenciado em Educação Física pela UFRJ, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE-UFRJ) e pesquisador do GEMasc - Grupo de Estudos sobre Masculinidades e Educação. Atua como professor nas redes municipais de São João de Meriti e Duque de Caxias, desenvolvendo uma trajetória marcada pelo diálogo entre educação, corpo, território e relações raciais.


Em sua apresentação, intitulada “Coisas que mamãe diz que são coisas de homem: O movimento hip-hop educador e a construção das masculinidades negras”, ele traz relatos de quatro homens - um bboy, dois DJ’s e um MC - , atuantes na cultura hip-hop da Baixada Fluminense, e suas próprias reflexões sobre seus papéis na sociedade. Ao pensar em suas vivências de forma interseccional, ou seja, não como um somatório de opressões mas sim entendendo que os marcadores da diferença - raça, classe, sexualidade, gênero etc - geram especificidades em cada existência, a análise dos relatos através da performatividade da linguagem e do relato de si de Butler traz luz à ideia de que as expectativas sociais sobre o homem negro no hip-hop são quebradas pela própria existência destes corpos, uma vez que a visão social do homem negro não contempla os diferentes processos pelo qual cada corpo atravessa em sua existência na periferia, nos movimentos culturais e, mais especificamente, no movimento hip-hop.


Carlos Wendell Camara Deplan de Azevedo é cientista social formado pela UERJ, especialista em Saberes e Práticas na Educação Básica, com ênfase em Sociologia, pelo CESPEB/UFRJ, e mestre em Políticas Públicas e Formação Humana pelo PPGPPFH/UERJ.


O trabalho de nome “Lugar de afeto, aquilombamento e produção de saberes: Perspectivas da educação antirracista em um coletivo sociocultural em Morro Agudo” é, segundo o professor, uma devolutiva ao Quilombo Enraizados por permitir e proporcionar as experiências durante sua pesquisa de mestrado. O estudo propõe a existência de relações entre educação entre movimentos sociais, tendo como pano de fundo a atuação do Quilombo em Morro Agudo, nos campos da educação social, da democratização ao acesso à cultura e, portanto, da produção e construção de pedagogias não formais, do ensino para a vida pensando além do ambiente e currículo escolares. Ressalta, ainda, três pilares: o lugar de afeto como dimensão ética e estética dos movimentos sociais, o que favorece a troca e o diálogo entre visões diferentes de mundo; o aquilombamento como espaço de resistência, propondo ser mais difícil manipular e oprimir um coletivo que esteja unido em prol do mesmo objetivo; e a produção de saberes como potencialidade para o território, pensando no conhecimento enquanto instrumento de poder nas periferias e que os acessos a espaços de poder são maiores à medida em que o conhecimento é compartilhado com a comunidade.


Luis Guilherme Lemos, ou DJ Guidesemana, é mestrando em Educação pelo PPGE-UFRJ e graduado em História pela UFRRJ. Atua como professor de História no Pré-Vestibular Comunitário Rede Utopia, na Baixada Fluminense, contribuindo para processos formativos à democratização do acesso ao ensino superior.


Em seu trabalho, “Democratização do ensino superior para privados de liberdade: análise das contradições entre o direito legal e a realidade”, o DJ e professor debate o direito à educação para privados da liberdade, expondo contradições entre a realidade e a lei. Expõe dados que mostram que, no Brasil, além de um déficit educacional crítico para privados de liberdade e de baixo índice de alunos privados de liberdade no ensino superior, o país tem a terceira maior população carcerária do mundo, e em muitos casos a evasão escolar aconteceu antes mesmo da situação de privação de liberdade. Deste modo, o problema de déficit educacional começa antes mesmo dos jovens e das jovens entrarem no sistema e, uma vez dentro do sistema, a realidade é de maior dificuldade de retomarem os estudos de forma adequada - ou de qualquer forma. Conclui argumentando quem são os atores responsáveis por este cenário, denunciando o Estado como gestor da pobreza (segundo Wacquant) e trazendo os pensamentos de Paulo Freire sobre levar as experiências dos educandos e educandas como ponto de partida como alternativas possíveis de educação dentro do sistema prisional brasileiro.


Mariana Belize é doutora em Literatura Brasileira na PGLV-UFRJ, mestra em Literatura Brasileira pela UFRJ e graduada em Letras - Língua Portuguesa/Literaturas pela UFRRJ Campus Nova Iguaçu. Também é poeta e criou o Projeto Literário Olho de Belize em 2015 para divulgar e escrever sobre a arte na Baixada Fluminense.


Seu estudo se chama “Ensinando literatura brasileira de forma crítica na Rede Emancipa, em Belford Roxo”, e discute os desafios e possibilidades de planejar uma aula de Literatura Brasileira em Belford Roxo, território que está distante da cosmovisão a partir da qual a Base Nacional Curricular Comum define o que é o conteúdo escolar - não só de Literatura Brasileira. Questiona qual é o ensino dado nas escolas, quem são os educandos e as educandas e, ainda, qual é a Literatura Brasileira ensinada como ideal nas aulas em espaços formais de ensino. Mariana traz também um relato de experiência, expondo que sua metodologia baseia-se em desconstruir elementos das aulas, visualizar o que não comunica com o território ou com a comunidade e substituir por elementos - ou, neste caso, personalidades - que façam sentido para os corpos e vivências que ali estão, lidando com a dinâmica de aula como não só um mercado de trocas entre educandos, educandas e ela enquanto mediadora do conhecimento, mas também trocas multidisciplinares entre conteúdos da vida escolar, da vida cotidiana e da vida social.


Yuri Braz é professor, educador e pesquisador em Geografia, com formação vinculada à UFRRJ e atuação no Curso Popular Enraizados. Foi bolsista do PET Geografia UFRRJ-IM, experiência voltada ao diálogo entre ciência, arte, cultura e formação cidadã. No Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRRJ, desenvolveu pesquisa de mestrado sobre a branquitude nos cursos de Geografia da universidade, entre 2015 e 2025.


Essa pesquisa, que tem como título “Cara gente branca: Um estudo sobre a branquitude na pós-graduação em geografia da UFRRJ”, traz a realidade da inexistência de professores negros no curso de pós-graduação em geografia, o que traz impactos diretos e indiretos na formação de professores e pesquisadores em geografia na instituição. Sua base teórica para a pesquisa incluiu pesquisar a branquitude e seus processos de formação, além de pesquisa histórica sobre a criação da UFRRJ e o contexto de sua mudança da sede da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária - Esamv, na Urca, para inicialmente Santa Cruz e, finalmente, o campus de Seropédica que existe até hoje. Concluiu sugerindo a geografia que ele quer, trazendo intelectuais negros e negras para o centro do debate como forma de contrapor a histórica segregação nos cursos de pós-graduação em geografia, não só na UFRRJ mas em todas as instituições de ensino superior.


A tarde de apresentação de trabalhos da CIEC mostrou que a Educação Clandestina participa de diversos âmbitos da realidade. André trouxe as masculinidades negras sendo ressignificadas no hip-hop; Carlos Wendell nos lembrou que afeto, aquilombamento e produção de saber são os pilares que sustentam espaços como o Quilombo Enraizados. DJ Guidesemana expôs as contradições do sistema prisional e o abandono do Estado, Mariana Belize mostrou que ensinar literatura em territórios periféricos exige coragem para substituir o que não comunica pelo que faz sentido e Yuri Braz fechou a leva escancarando a branquitude que ainda domina os cursos de pós-graduação em Geografia e propondo uma nova rota, com intelectuais negros e negras no centro do pensamento e da metodologia. Cinco trabalhos, o mesmo território e só uma mensagem: a educação clandestina não precisa e nunca precisará de validação para funcionar: o movimento já está acontecendo.


Texto: FIjó

Fotografia: Myllena Braga

#UFRRJ#Duke#Enraizados#Conferência#EducaçãoClandestina

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Foto: Myllena Braga

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