Conferência Internacional de Educação Clandestina debate questões sobre a cultura de rua dentro de sala de aula
Primeiras apresentações de trabalho da CIEC parte da educação infantil, passa por hip-hop enquanto construtor de autoestima e termina com estudo de História por meio de seus elementos.

No primeiro dia do Festival Caleidoscópio 2026 - Educação Clandextina, aconteceu a I Conferência Internacional de Educação Clandestina - CIEC, reunindo educadores, artistas, pesquisadores, lideranças comunitárias, estudantes e representantes de movimentos sociais para dialogar sobre experiências de formação política, cultural e cidadã que acontecem dentro e fora da escola. Durante a manhã do primeiro dia, tivemos a primeira leva de apresentação de trabalhos da CIEC. A primeira apresentação da Conferência ficou por conta de Yasmin Reis e Rico Mesquita.
“Nada que é clandestino pode ser patenteado nem vendido, e nós seremos os atores da revolução em nosso território.”
Rico Mesquita, na I Conferência Internacional de Educação Clandestina.
Yasmin Reis (Lava) é cria de Belford Roxo, tem 25 anos e é arte-educadora das escolas e das ruas, pesquisadora formada pela UFRRJ, escritora, atriz de teatro e produtora cultural. Suas andanças se entrecruzam com o hip-hop em cada passo, seja nas salas de aula de escolas municipais da Baixada Fluminense, seja nas rodas culturais com a rima e a poesia.
Rico Mesquita é cantor, compositor, rapper, MC, produtor cultural e ativista, tendo sido premiado na categoria “Artista Revelação” no Prêmio BXD IN CENA 2023 e na categoria “Álbum Destaque BXD” na edição seguinte da premiação.
Lava e Rico iniciaram as apresentações com o trabalho inscrito por João Luiz (Jota da Via), pois este estava em São Paulo na cerimônia de recebimento do Prêmio Nacional Vozes Periféricas pela atuação com a Roda da Via. Lava e Rico falaram sobre a atuação do Educa Hip-Hop dentro e fora de sala de aula, citando como resultado a trajetória do MC LH BXD, que nasce de intervenções de Lava enquanto professora da rede municipal e tem como consequência um dos MC’s mais novos a pisar no palco do Estadual RJ, a final estadual do Rio de Janeiro para o Duelo Nacional de MC’s.
"Em espaços educativos [formais], vemos uma educação engessada que não dá conta de abraçar corpos marginalizados.”
Yasmin Reis, na I Conferência Internacional de Educação Clandestina.
Aline Ignacio Teixeira é pedagoga, artista visual, estudante de Artes e professora da educação básica no município de Nilópolis. Também atua como pedagoga na Secretaria Municipal de Educação de Nova Iguaçu. Pesquisa temas relacionados à educação, arte, identidade e pertencimento. Em sua apresentação, nos trouxe a experiência de trabalhar elementos do Hip-Hop no cenário da educação infantil, dialogando com o letramento social como elemento complementar ao letramento alfabético e matemático nas crianças dos anos iniciais, utilizando a arte-educação como ferramenta principal de emancipação do sujeito, construção de identidade, pertencimento e representatividade. Também defendeu um ambiente escolar sensível às vivências dos estudantes e comprometido com a transformação coletiva.
“Tentar hackear o sistema é uma forma de ‘clandestinizar’ a educação para poder levar uma nova proposta para os alunos e as alunas.”
Aline Teixeira Ignacio, na I Conferência Internacional de Educação Clandestina.
Lucas da Silva, ou DJ Torrá, como também é conhecido, compartilhou sua visão sobre o rap e os rappers, compreendidos como “ideólogos do gueto”, como alternativas possíveis para a construção de saberes em sala de aula. Sua pesquisa também cita Nilma Lino Gomes ao abordar o hip-hop enquanto movimento social produtor de conhecimento periférico, denúncia e formação política. Torrá também trouxe suas vivências enquanto estagiário e, posteriormente, professor de História para ilustrar na prática o hip-hop como ferramenta para estudar história local, com ênfase na Baixada Fluminense.
“[Aplicar os elementos do hip-hop na prática pedagógica] é fazer o aluno ou aluna se entender como pertencente à linha do tempo.”
DJ Torrá, na I Conferência Internacional de Educação Clandestina.
A primeira manhã da I Conferência Internacional de Educação Clandestina mostrou ideias e caminhos que se cruzam: da educação infantil à formação de MC’s, do estágio em História à pedagogia de rua, todo mundo apontou para uma prática que não aceita a “escola engessada” e bota o hip-hop como ferramenta real de letramento, pertencimento e pensamento crítico. Os resultados dos trabalhos apresentados deixam claro — cada um a seu modo — que Educação Clandestina não é ideia solta; é coisa que se faz todo dia, hackeando o sistema por dentro e por fora e plantando revolução no chão do território.
Texto: Fijó
Fotografia: Myllena Braga
Deixe seu comentário
Faça login para comentar de forma simplificada. Seus comentários serão publicados automaticamente se você já teve um aprovado antes.